A filosofia grega possuía uma concepção antropológica da natureza humana bem definida. Isso é perceptível na obra de Aristóteles, que afirma que “a plenitude da vida humana se encontrava na vida da inteligência”[1]MALHEIRO apud ARISTÓTELES, 2017, p. 46. Além disso, deve-se compreender que “o que é próprio de cada um por natureza é também o mais excelente e o mais agradável para cada um”[2]MALHEIRO, 2017, p. 46. Ou seja, existem capacidades, talentos, potências que são próprias de cada indivíduo, particularmente. Por esse motivo, não se pode exigir um padrão ou formato educacional para que cada personalidade se encaixe, porque não vai funcionar.

Qualquer proposta educacional que tenha como foco apenas o emocional, a satisfação dos desejos, a satisfação do educando, a satisfação das vontades, o hedonismo etc. fracassará miseravelmente, porque alcançará o indivíduo parcialmente, deixando o processo educacional mutilado. Os gregos estavam preocupados com o aperfeiçoamento integral do indivíduo, através de uma perspectiva que seria transcendente, que fosse além dos desejos ou vontades pessoais. Essa transformação só seria possível no exercício cotidiano das virtudes. Por isso, o conceito de felicidade (eudaimonia) – segundo a filosofia grega – se dava na contemplação de um bem absoluto, nutrido da contemplação da verdade e na prática da virtude[3]ARISTÓTELES, 2001, 1099b..

Inspirado nessas ideias aristotélicas, o autor MacIntyre afirmou que o aprendizado das virtudes nos ajuda a obter autodomínio, a viver de forma mais racional. Dessa forma, o processo educacional se orientará segundo critérios objetivos e provenientes de uma tradição cultural objetiva, concreta. Sem as virtudes presentes em nosso cotidiano, a ação humana não resistiria ao poder corruptor de algumas instituições que, além de não promover esse necessário aperfeiçoamento integral, faz o papel de fomentar comportamentos, ideias, valores, ideologias e vícios que atrofiam as capacidades humanas[4]MALHEIRO apud MACINTYRE, 2017, p. 47.

Portanto, a falta de exercício das virtudes é o que poderia justificar as desordens morais que percebemos no país e no mundo. Por isso, é mais que necessário indicar os critérios que indiquem o que seria, de fato, uma vida virtuosa[5]MALHEIRO, 2017, p. 48. Por isso, é importante entender que:

ao contrário do emotivismo, a vida ética é ressaltada segundo a indispensável adequação do comportamento de cada indivíduo a critérios que são provenientes da tradição cultural e que devem ser aprendidos de modo a construírem uma habilidade prática. (MALHEIRO, 2017, p. 48)

Ou seja, a virtude é algo que se adquire por meio de prática, tornando-se um hábito a ser adquirido desde a infância. Mesmo não sendo inata, se torna necessária para que uma transformação das potências humanas (inteligência, vontade e afetividade) que, por sua vez, facilitaria e aperfeiçoaria nossa a capacidade de escolha e as ações humanas. Porém, essas potências humanas não podem ser consideradas separadamente, porque há entre elas uma interdependência e uma evidente complementaridade. Em suma, ao se ignorar essas capacidades, entender equivocadamente suas funções ou uso, ou considerá-las isoladamente pode-se provocar aquilo que se percebe hoje em muitos casos concretos[6]MALHEIRO, 2017, p. 53.

Referências

Referências
1 MALHEIRO apud ARISTÓTELES, 2017, p. 46
2 MALHEIRO, 2017, p. 46
3 ARISTÓTELES, 2001, 1099b.
4 MALHEIRO apud MACINTYRE, 2017, p. 47
5 MALHEIRO, 2017, p. 48
6 MALHEIRO, 2017, p. 53